Nos momentos em que menos podemos parar e existir, as coisas nos chamam a nos incomodar com elas. Eu não gosto dessa sazonalidade, por que não pode haver uma certa constância no quem sou eu?
É só quando esta advém que posso voltar a gostar de mim.
sábado, 4 de dezembro de 2010
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Número 4, o filme do desassossego
Nada é mais doloroso
do que sofrer pouco,
aos poucos.
Nada é pior do que o desassossego,
e nada mais verdadeiro.
A dor pequena ninguém perdoa;
por isso a gente corre sempre atrás de sofrer mais e mais
do que sofrer pouco,
aos poucos.
Nada é pior do que o desassossego,
e nada mais verdadeiro.
A dor pequena ninguém perdoa;
por isso a gente corre sempre atrás de sofrer mais e mais
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Número 3, inspirações trazidas pelo vento
Me contaram uma história um dia desses que falava sobre um país distante, num mundo distante. Esse lugar era cheio de natureza, e pelas ruas das cidades pairava um ar diferente, como se houvesse uma aura mágica sempre presente, causando arrepios nas espinhas e pequenos choques de prazer na pele. As águas das fontes formavam cortinas de gotículas brilhantes que umedeciam os lábios de quem respirava, e o vento do campo que corrias por entre as alamedas deixava o hálito de todas as pessoas com o frescor e o cheiro doce da primavera. As pessoas gostavam de morar nesse lugar. Quase todos eram felizes ali. Mas o tempo passa sem parar para contemplar a beleza da vida, e as coisas mudam, e as pessoas também, e nada pode continuar para sempre. A primeira coisa que mudou foi a mágica da cidade, e as pessoas começaram a retirar dela um novo tipo de prazer. Os arrepios desciam até suas partes íntimas, e os olhares, ao se cruzarem, faziam o coração bater forte, e cada toque era sentido e vivido como o mais puro êxtase. O vento se abafou, mas nunca parou de soprar. O ar úmido passando pelas frestas fazia soar uma doce melodia, mais doce do que as respirações tinham sido um dia, e o hálito quente agora lembrava o sabor da noite, do orvalho e da lua. A cidade tornou-se quente, e todos passaram então a se vestirem de branco, a até a luz ficou mais branca. E tudo ficou tão puro, que as carícias cheias de paixão se faziam também com a inocência de uma infância que ficara para trás, e o amor que se trocava era a cada momento a coisa mais linda do universo. As fontes saturavam o ar com suas gotas, mas estas refrescavam o ar onde pairavam, e saciavam a sede dos passantes, grudavam em suas peles e escorriam por seus corpos, deixando trilhas sinuosas por entre seus decotes. Algumas pessoas partiram, outras chegaram. A cidade, o país, nunca mais foram os mesmos. E mesmo assim não era necessariamente pior nem melhor. Alguns odiaram a mudança, o tempo, e odiaram a vida, e então para eles não havia mais espaço lá. Pois não havia mais lugar para tanto ódio em meio à brancura. E isso talvez fosse a pior coisa de todas, pois todo mundo precisa de um pouco de raiva às vezes. E muitos sofreram, e choraram pelos que partiram, e quiseram que não chegassem outros. Mas chegaram, e ficaram, e foram depois queridos tanto quanto aqueles que há muito tinham partido. E muitos se acostumaram, e ficaram mais felizes ainda com o jeito novo das coisas, e quiseram que dessa vez fosse para sempre. Mas não podia ser, e em algum momento as coisas começaram a mudar de novo. Dessa vez o que mudou primeiro foi o vento, que começou a soprar o cheiro de novas terras, e o cheiro do mar, e o cheiro de temperos exóticos e de frutas de terras distantes. E tudo mudou mais uma vez.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Número 2, escrever é difícil
Todo mundo um dia precisa parar e pensar: e aí, afinal, o que eu quero dessa vida? Porque viver dia após dia apenas passando os dias, tirando o que eles têm de bom para dar, aproveitando o tempo com os amigos, com a família, com quem importa, fazendo o que gostamos, fazendo o que somos obrigados a fazer, comendo coisas gostosas e outras nem tanto, dormindo, acordando cedo, fazendo exercício para manter a saúde é muitas vezes muito bom. Mas um dia a gente precisa parar, nem que seja um pouquinho, porque ninguém vai realmente virar pra gente e dizer “esse é o sentido da vida!”. Nenhuma máquina vai calcular a resposta para a questão mais importante de todas. A resposta não vai ser 42. E mesmo que seja, a gente ainda vai ter que entender, cada um por si, o que isso quer dizer.
Quarenta e dois.
Pode querer dizer tantas coisas… Pode significar tudo e pode significar nada, pode significar vida e pode significar morte. Uma vez me disseram que queria dizer que existem quarenta e dois bons motivos para se viver a vida, como quer que ela venha para você. Mas não me disseram que motivos eram esses. Outra vez me disseram que ninguém devia tentar entender essas coisas, porque a gente nunca vai saber a resposta certa de qualquer modo. Eu já pensei que todo mundo tem que encontrar a sua. E que a resposta pode ser qualquer coisa. A minha resposta à pergunta sobre porque eu estou viva vai ser a partir de hoje serendipity e isso não precisa estar certo nem significar nada pra mais ninguém.
Quarenta e dois.
Pode querer dizer tantas coisas… Pode significar tudo e pode significar nada, pode significar vida e pode significar morte. Uma vez me disseram que queria dizer que existem quarenta e dois bons motivos para se viver a vida, como quer que ela venha para você. Mas não me disseram que motivos eram esses. Outra vez me disseram que ninguém devia tentar entender essas coisas, porque a gente nunca vai saber a resposta certa de qualquer modo. Eu já pensei que todo mundo tem que encontrar a sua. E que a resposta pode ser qualquer coisa. A minha resposta à pergunta sobre porque eu estou viva vai ser a partir de hoje serendipity e isso não precisa estar certo nem significar nada pra mais ninguém.
domingo, 26 de setembro de 2010
Número 1, bem vindos ao blog
E se amanhã eu tiver esquecido quem sou? Será que eu teria a chance de começar do zero ou será que as pessoas do passado me prenderiam, me amarrariam a quem eu era, e a quem eu jamais voltaria a ser?
Uma vez isso aconteceu com uma pessoa lá longe, em um lugar bonito, feio, bom, ruim, exatamente como aqui. Ela se esqueceu e era para sempre. Ela tinha tido amigos, mãe, pai, família, namorados e namoradas. Ela tinha tido religião, profissão, casa, filhos. Mas ela se esqueceu, e depois de esquecido, não queria mesmo lembrar. E sua vida nem era ruim: tinha sido feliz. Mas essa pessoa escolheu que queria ser uma pessoa nova, não queria ter que carregar as responsabilidades de quem ela fora, só porque continuava com o mesmo corpo. Afinal, sua alma era outra. Ela quis ir embora, mudar de cidade. Ir re-conhecendo aos poucos as pessoas do seu passado, uma por uma, com calma, porque era demais ter que relembrar todos ao mesmo tempo.
Ela tentou, mas o passado não deixou. Os outros a seguraram com unhas e dentes, impediram-na de se afastar, de descobrir quem ela era agora, queriam que fosse quem era. Mas ela não podia ser. As fotos não faziam nascer novamente as lembranças dentro dela, as histórias pareciam contos distantes, contados por atores que a rodeavam e tentavam insistir que ela também participasse da peça. As pessoas não eram mais pessoas, eram fantasmas que assombravam noite e dia, que exigiam muito mais do que ela podia dar. Ou queria dar. Ela era chamada de egoísta, mas será que era realmente egoísmo querer se construir a si mesma? Descobrir que pessoa era aquela que se chamava de eu, que não tinha memória, mas que tinha um jeito de ser, e um jeito de pensar, cujas origens permaneceriam para sempre ocultas em mistério? Mas seu ‘eu’ acabou sendo forçosamente preenchido com um passado que ao mesmo tempo em que era seu, jamais o seria. A vida dela, vista pelos outros jamais seria a vida que ela tinha vivido. E ela não conseguia deixar de sentir que ela não era nada mais que uma farsa, que ela poderia muito bem ser nada além do que um corpo fabricado, uma folha branca a ser preenchida com o que aquelas pessoas quisessem. Só não era porque não queria ser.
No final, a pessoa que tanto amou os outros não quis mais amar, a pessoa que viveu a vida com tanta alegria não quis mais viver. E foi assim que acabou. Se amanhã eu tiver esquecido quem sou, será que eu vou aguentar ser quem o meu passado vai querer que eu seja?
Uma vez isso aconteceu com uma pessoa lá longe, em um lugar bonito, feio, bom, ruim, exatamente como aqui. Ela se esqueceu e era para sempre. Ela tinha tido amigos, mãe, pai, família, namorados e namoradas. Ela tinha tido religião, profissão, casa, filhos. Mas ela se esqueceu, e depois de esquecido, não queria mesmo lembrar. E sua vida nem era ruim: tinha sido feliz. Mas essa pessoa escolheu que queria ser uma pessoa nova, não queria ter que carregar as responsabilidades de quem ela fora, só porque continuava com o mesmo corpo. Afinal, sua alma era outra. Ela quis ir embora, mudar de cidade. Ir re-conhecendo aos poucos as pessoas do seu passado, uma por uma, com calma, porque era demais ter que relembrar todos ao mesmo tempo.
Ela tentou, mas o passado não deixou. Os outros a seguraram com unhas e dentes, impediram-na de se afastar, de descobrir quem ela era agora, queriam que fosse quem era. Mas ela não podia ser. As fotos não faziam nascer novamente as lembranças dentro dela, as histórias pareciam contos distantes, contados por atores que a rodeavam e tentavam insistir que ela também participasse da peça. As pessoas não eram mais pessoas, eram fantasmas que assombravam noite e dia, que exigiam muito mais do que ela podia dar. Ou queria dar. Ela era chamada de egoísta, mas será que era realmente egoísmo querer se construir a si mesma? Descobrir que pessoa era aquela que se chamava de eu, que não tinha memória, mas que tinha um jeito de ser, e um jeito de pensar, cujas origens permaneceriam para sempre ocultas em mistério? Mas seu ‘eu’ acabou sendo forçosamente preenchido com um passado que ao mesmo tempo em que era seu, jamais o seria. A vida dela, vista pelos outros jamais seria a vida que ela tinha vivido. E ela não conseguia deixar de sentir que ela não era nada mais que uma farsa, que ela poderia muito bem ser nada além do que um corpo fabricado, uma folha branca a ser preenchida com o que aquelas pessoas quisessem. Só não era porque não queria ser.
No final, a pessoa que tanto amou os outros não quis mais amar, a pessoa que viveu a vida com tanta alegria não quis mais viver. E foi assim que acabou. Se amanhã eu tiver esquecido quem sou, será que eu vou aguentar ser quem o meu passado vai querer que eu seja?
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