Ensaio
Há um monstro correndo atrás de você. Um monstro feito de uma fumaça negra e densa, que te sufoca e turva a sua visão. Você corre e corre, mas ele está sempre se aproximando, aos pouquinhos. Você não pode escapar, não importa o que você faça. Você tenta impedir que ele te alcance, pois sabe que se isso acontecer, ele irá destruir você, ele vai se infiltrar para dentro de você quando você respirar, preencher os seus pulmões e passar para a sua corrente sanguínea, e envenenar o seu coração até que cada batida doa como uma centena de facas te apunhalando. Ele vai se tornar parte de você. Você continua correndo, mas a cada momento percebe que a fumaça está se aproximando de você. Fica mais difícil respirar, mais difícil enxergar o caminho à sua frente. Seus passos começam a vacilar. O medo te dá um último impulso de energia, você luta mais do que nunca mas é tarde demais. Não adianta mais. É sua última tentativa de resistir. Às vezes esse processo é rápido, e às vezes você corre por anos. Mas o final é sempre o mesmo. De repente a fumaça já te envolveu. Não há nada além da escuridão. Não há som, não há vento, não há caminho a seguir. Nesse momento, você se dá conta de que esse monstro tem um nome. O nome dele é desespero. E ele te pegou, e não vai mais soltar. Você percebe que a única libertação é a morte. E por um tempo, realmente é. A dor e o sangue são bem-vindos. Ele são uma lembrança de que há algo para além da fumaça. Você fecha os olhos. Você não vê mais. Você não sente mais. E então você não é mais. E pelo tempo de um último suspiro, você acredita que é para sempre.